Exposição “Identidade e Cultura. Património Arqueológico de Sharjah (EAU)

A exposição “Identidade e Cultura. Património Arqueológico de Sharjah (EAU)”, dá a conhecer a ocupação humana numa parte da Península Arábica - o território de Sharjah -, desde a Pré-História à contemporaneidade. 

Organizada em colaboração entre a Direcção-Geral do Património Cultural/Museu Nacional de Arqueologia e a Autoridade Arqueológica de Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), a exposição está patente, em Lisboa, até ao final de 2020 e mostra uma cultura material pouco habitual nas propostas expositivas nacionais.

Na narrativa constam naturalmente também os vestígios materiais dos contactos mantidos nesta região com os portugueses nos séculos XVI e XVII: primeiros europeus a chegar à Península Arábica, a temporalmente longa e estreita relação entre os dois países é também realçada pelo discurso expositivo de “Identidade e Cultura. Património Arqueológico de Sharjah (EAU)”.

A exposição apresenta ainda os resultados científicos das escavações em Kelba Kor Kalba e das prospecções subaquáticas na região, que a Missão Arqueológica Portuguesa em Sharjah, integrada no Instituto de Arqueologia e Paleociências da NOVA-Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, ali tem vindo a realizar.

O conjunto de bens culturais expostos, num total de cerca de 170, integra para além dos que foram cedidos por Sharjah, ainda outros, propriedade de relevantes instituições culturais portuguesas, tais como: Direção-Geral do Património Cultural, Arquivo Nacional/Torre do Tombo, Biblioteca do Forte de São Julião da Barra/Ministério da Defesa Nacional; Academia Militar/Exército Português, Sociedade de Geografia de Lisboa, Academia de Ciências de Lisboa, Colecionadores Mário Roque e Mário Varela Gomes.

Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência O Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa e de Sua Alteza Sheik Doutor Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, Emir de Sharjah e Membro do Conselho Supremo dos Emirados Árabes Unidos, esta exposição resulta do trabalho de conceção e organização de uma equipa mista de comissários científicos de ambos os países.

O projeto museológico de “Identidade e Cultura. Património Arqueológico de Sharjah (EAU)”, da autoria dos arquitetos Mário Varela Gomes, Rita Varela Gomes e André Rama Pires, propõe também uma relação espacialmente diferente com a galeria de exposições temporárias do Museu Nacional de Arqueologia, proporcionando ao visitante uma sensação muito distinta da habitual e previsível retilinearidade que encontra no espaço.

 

Notícias de imprensa:

"Sharjah" Friday 15, November 2019: https://www.sharjah24.ae/en/sharjah/211675/Sultan-bin-Ahmed-opens-Sharjah-Archaeology-Exhibition-in-Lisbon 

"Teller Report" Friday 15, November 2019: https://www.tellerreport.com/life/2019-11-15---treasures-of-sharjah-overlooking-lisbon-.B1Gvqbi2iS.html

"Sharjah" Saturday 16, November 2019: https://www.sharjah24.ae/en/sharjah/211745/Sultan-bin-Ahmed-meets-President-of-Portugal-News-Agency 

 

 

 

 





Exposição ” LUCIUS CORNELIUS BOCCHUS – Um Lusitano Universal”

LUCIUS CORNELIUS BOCCHUS. UM LUSITANO UNIVERSAL

Inaugurou no dia 10 de setembro, no Museu Nacional de Arqueologia, a exposição LUCIUS CORNELIUS BOCCHUS – Um Lusitano Universal.

No âmbito da Programação Mostra Espanha 2019. A inicitaiva contou com a apresentação de três conferências (PROGRAMA).

 

Lucius Cornelius Bocchus é um cidadão romano nascido na Lusitânia, pertencente a uma família muito representada na epigrafia de Salacia (Alcácer do Sal), aceitando-se que aquela ali se tenha fixado no final da República / início do Império. Foi homenageado em várias cidades.

Algumas inscrições, identificadas em centros urbanos na antiga província da Lusitânia romana e mesmo em outros pontos do Império, apresentam idêntico apelido Bocchus, mas nomeiam diferentes ascendentes paternos, referindo-se, pois, a mais do que um indivíduo.

Lucius Cornelius Bocchus é necessariamente uma figura proeminente na elite social, na economia e no governo de algumas das principais cidades da província, mas também na capital desta, Augusta Emerita (Mérida), na primeira metade do século I d. C..

A administração das cidades homenageou-o (e ele fez-se homenagear, também), reconhecendo assim, através de inscrições, o mecenas, o evérgeta, o patrono. Esta “troca”, nesta época, era muito habitual, e consistia na retribuição face a um ato de munificência cívica (generosidade cívica), pois cidadãos abastados como este salaciense financiavam a construção de infraestruturas, edifícios públicos, civis ou religiosos nas cidades, como, por exemplo, a renovação de um teatro ou a construção de um templo. Foi certamente este o caso em Olisipo e em Mérida.

Mediante este exemplo concreto - Lucius Cornelius Bocchus e a sua gens (família) – evocamos a vida dos personagens que integravam as oligarquias lusitanas, com fortes interesses económicos, e que interagiam com os responsáveis político-militares na capital da província – Augusta Emerita – e mesmo na capital do Império - Roma.

Estes oligarcas da Lusitânia, e as clientelas que formavam, fundam o seu poder económico em negócios muito rentáveis: a mineração (ouro, prata, cobre e estanho), a produção e exportação dos preparados de peixe ou a “marmorização” das cidades, para o que a exploração do mármore do anticlinal de Borba-Estremoz é determinante, assumindo o comércio deste um papel de destaque na capital da província e na rede de novas cidades construídas, ou renovadas, a partir da viragem da era na fachada atlântica do Império.

A origem da família em Salacia – localizada no eixo Augusta Emerita/Olisipo -, bem como a proximidade de importantes centros relevantes na economia da Lusitânia, como Tróia ou as pedreiras de exportação de mármore de Borba/Estremoz, no caminho entre capital e porto da província, são aspetos necessariamente relacionados.

Este exercício demonstra como a Lusitânia, que marca a fronteira entre a terra sabida e o oceano desconhecido, assumirá um papel de relevo na geopolítica da construção do Império, aproximando-a, e aos seus naturais, indelevelmente, de Roma.

Sabe-se ainda que um Bocchus (eventualmente o que é referido na inscrição de Lisboa, ou em ambas) seria o reconhecido literato lusitano e autor, citado por Plínio-o-Velho (23/24 – 79 d. C.) na História Natural e por Macróbio (prefeito pretoriano de Itália em 430 d. C.) nas Saturnais.

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Entendeu o Museu Nacional de Arqueologia, no âmbito da sua programação Mostra Espanha 2019, organizar, conjuntamente com o Centro de Arqueologia de Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa, o Museo Nacional de Arte Romano e o Consórcio Ciudad Monumental de Mérida, esta exposição, para que se conheça melhor o legado romano – nossa cultura e património comuns.

Afortunadamente, o Centro de Arqueologia de Lisboa resgatou definitivamente das Termas dos Cássios, na Rua das Pedras Negras, onde se encontrava num lugar de dificílimo acesso, a afamada inscrição de Lisboa, descoberta por A. M. Dias Diogo, e que nunca fora apresentada publicamente. Até agora.

A reunião desta com a inscrição de Bocchus de Mérida é, portanto, um acontecimento inédito, especial e com valor simbólico, pois juntamos a epigrafia da capital da província e da capital atlântica, também porto de mar desta.

Esta apresentação na galeria nascente do Museu Nacional de Arqueologia, ocupada pela exposição “Religiões da Lusitânia. Luquuntor Saxa”, é um lembrete para que não se perca a ideia de uma necessária e desejada renovação daquela no quadro da unanimemente ambicionada reprogramação do Museu Nacional de Arqueologia.

Os promotores desta exposição agradecem reconhecidos a João Luís Cardoso, da Academia Portuguesa da História (Lisboa) e Martín Almagro-Gorbea, da Real Academia de la Historia (Madrid) que organizaram o colóquio dedicado a “Lucius Cornelius Bocchus: Escritor Lusitano da Idade de Prata da Literatura Latina” e editaram em 2011 um volume com as respetivas atas.

 

INSCRIÇÃO Nº  1 – INSCRIÇÃO DE LISBOA DE LUCIUS CORNELIUS BOCCHUS

TABELA:

Cipo paralelepipédico em lioz, de veios rosados. Proveniente das Termas dos Cássios (Rua das Pedras Negras/Travessa do Almada, Lisboa). (Dimensões: 99x49x48,5 cm)

Século I d.C.

Propriedade: Câmara Municipal de Lisboa/Centro de Arqueologia de Lisboa.

TRANSCRIÇÃO:

L(ucio) · CORNELIO

L(ucii) · F(ilio) · GAL(eria tribu) · BOCCHO

SALACIENSI

FLAMINI · PROVIN

CIAE · LUSITANIA[E]

PRAEF(ecto) · FABRVM · V (quinquies)

TRIB(uno) · MILIT(um) · LEG(ionis) · VIII (octavae)

AVG(ustae)

D(ecreto) · D(ecurionum)

Transcrição de José d’Encarnação

TRADUÇÃO:

Lucius Cornelius Bocchus, filho de Lucius, da tribo Galeria, natural de Alcácer do Sal. Foi flâmine da província da Lusitânia,  por cinco vezes prefeito dos artífices e tribuno da VIII legião Augusta. Monumento mandado erigir por decreto dos decuriões.

COMENTÁRIO:

Esta inscrição é dedicada a um cidadão romano que viveu no século I d.C. da família dos Bocchi.

Além de se referir a origem geográfica deste Lucius Cornelius (Salacia, atual Alcácer do Sal), são enumerados os cargos por ele desempenhados: Flâmine Provincial (Sacerdote promotor do culto imperial na Província); Prefeito dos Artífices (Chefe dos Engenheiros Militares), por 5 vezes, e Tribuno, ou seja, um oficial, neste caso da VIII Legião Augusta. Resumindo, um cidadão e uma família proeminentes da Lusitânia, ao ponto de ter sido homenageado, em Felicitas Iulia Olisipo (Lisboa), por Decreto dos Decuriões (membros de um senado local, que reunia cidadãos representantes das mais influentes famílias, e que eram responsáveis por dirigir regiões administrativas em nome do governo, neste caso provincial).

 

 

INSCRIÇÃO Nº 2 – INSCRIÇÃO DE MÉRIDA DE LUCIUS CORNELIUS BOCCHUS

TABELA:

Placa em mármore. Proveniente do tanque oriental da área do temenos (recinto) do Templo de Diana, Mérida. (Dimensões: 42x27x3 cm)

21-31 d. C. (Período de Tibério).

Propriedade: Museo Nacional de Arte Romano, Mérida. Depósito do Consorcio de la Ciudad Monumental de Mérida. (Inventário Nº: D0211/2/9)

TRANSCRIÇÃO:

[L (ucio) CORNELIO L (ucii) F (ilio) BO] CCHO

[PR (aefecto) FABR (um) V (quinquies) L (ucii) FVLCINI TR] IONIS ∙ CO (n) S (ulis)

[PRO PR (aetore) TI (berii) CAES aris)] AVGVSTI

[FLAMINI PROVINC (iae)] LVSITAN (iae)

[ ─ - 0] NVENTVS ∙

Transcrição e reconstituição do texto de José Carlos Saquete

TRADUÇÃO:

A Lucius Cornelius Bocchus, filho de Lucius, cinco vezes Prefeito dos artífices, do cônsul Lucius Fulcinius Trio, legado propretor de Tibério César Augusto, flâmine da província da Lusitânia, […]

COMENTÁRIO:

Trata-se de uma epígrafe laudatória oferecida a um Bocchus, possivelmente a Lucius Cornelius Bocchus, personagem, da época tiberiana, bem conhecida. Por analogia com a inscrição de Lisboa, e acreditando diversos autores poder tratar-se do mesmo indivíduo, atribui-se-lhe o cargo de praefectus fabrum (Chefe dos Engenheiros Militares) e relacionamo-lo com o poderoso governador da Lusitânia ao tempo do reinado Tibério (14-37 d.C.), Lucius Fulcinius Trio, cujo nome aparece igualmente nesta inscrição. Foi por alguns considerado encarregado das obras do templo de culto imperial provincial, dedicado, aparentemente, ao diuus Augustus, cujas ruínas foram encontradas na rua Holguín, em Mérida.

O facto de esta epígrafe ter aparecido na área do Forum da Colónia leva-nos a pensar que a dedicatória, a tão importante personagem, esteve a cargo dos magistrados da colónia emeritense.

 

 





Religiões da Lusitânia. Loquuntur saxa.

 

Data de abertura ao público: 27 de junho de 2002 

Local no MNA: Galeria Oriental

Organização institucional: Museu Nacional de Arqueologia

Comissariado científico: José Cardim Ribeiro

Tipo de exposição: Síntese nacional

 

O fenómeno religioso, na sua historicidade, tem sido alvo de múltiplas abordagens interpretativas. Recorde-se Frazer e a abrangência comparativista; Lévi-Strauss e os arquétipos estruturalistas; Dumézil e os esquemas funcionalistas; Eliade e a universalidade do simbólico. Porém, nada mais genial do que a breve metáfora engendrada pelo inglês Murray, desde logo adotada e desenvolvida por Dodds no seu irreverente estudo sobre a cultura grega e o irracional: o fenómeno religioso revela-se, em todas as épocas e regiões, como um “conglomerado herdado”. E comenta Dodds: “A metáfora geológica é feliz porque o crescimento religioso é (...) a aglomeração mais do que a substituição”. Por isso, quando hoje estudamos as religiões do passado, não procuramos apenas conhecer melhor as nossas longínquas raízes culturais, antes lidamos com qualquer coisa ainda presente – embora de forma parcelar e, por vezes, subjetiva – na nossa atual vivência como Homo religiosus que (queiramos ou não...) todos somos.
Daí, o inusitado e sempre crescente interesse que desperta, no grande público, a abordagem destes temas. Daí, o esperado êxito da futura exposição promovida pelo Museu Nacional de Arqueologia, no virar dos milénios, sobre as Religiões da Lusitânia.
Hispania Aeterna e Roma Aeterna. Duas tradições que convergem e se sincretizam por força da Pax Romana. Mas que o Oriente, donde sempre vem a Luz, acaba por “converter”... E o “aglomerado” vai-se avolumando, encobrindo ou evidenciando aqui e além alguns dos seus componentes, mas nada perdendo, tudo armazenando. São forças secretas da Natureza, numina tutelares, divindades várias, heróis deificados, práticas rituais e mágicas, a Vida e a Morte. São textos obscuros, que é preciso decifrar para ler, são objetos e imagens de um passado duas vezes milenar que, após descodificados, se vêm a revelar bem mais presentes do que suporíamos. Será o Tempo uma quimera?
Um nome, por detrás de tudo isto: Leite de Vasconcellos, o grande estudioso que, há cem anos, pela primeira vez estudou exaustiva e metodicamente as Religiões da Lusitânia. Uma homenagem? Sem dúvida! Mas, certamente, muito mais do que isso...