Antiguidades Egípcias

Visite a exposição Antiguidades Egípcias que ilustra mais de cinco mil anos de história, desde a Pré-história (c.6000-3000 a.C.) até à Época Copta (395-642 d.C.)

Data de abertura ao público: 20 de Dezembro de 1993

Local no MNA: Sala Egípcia

Organização institucional: Museu Nacional de Arqueologia

Comissariado científico: Luís Manuel Araújo

Tipo de exposição: Apresentação de uma coleção

A coleção de antiguidades egípcias do Museu Nacional de Arqueologia constituída por 584 objetos (das quais 309 em exposição permanente) é a mais numerosa de Portugal, tendo sido reunida ao longo do século XX. Em 1909 Leite de Vasconcelos, fundador do Museu, trouxe do Egito cerca de setenta objetos; umas duzentas peças foram obtidas pela rainha D. Amélia durante a sua viagem ao Egito em 1903, passando para a posse do Estado em 1910; as restantes foram doadas pela família Palmela, por Bustorff Silva e Barros e Sá entre outros. Há cerca de oitenta peças de origem desconhecida.

A exposição cobre mais de cinco mil anos de história, indo desde a Pré-história (c.6000-3000 a.C.) até à Época Copta (395-642 d.C.) e nela estão representados os grandes períodos da civilização egípcia: o Império Antigo, o tempo áureo das pirâmides (c.2660-2180 a.C.); o Império Médio, uma época de grande brilho cultural (c. 2040-1780 a.C.); o Império Novo numa fase de expansão e de cosmopolitismo (c. 1560-1070 a.C.), a Época Baixa, com o seu renascimento artístico (664-332 a.C.); e a Época Greco-romana (332 a.C.-395 d.C.), durante a qual o Egito manteve uma notória independência cultural.

Luís Manuel Araújo, comissário da exposição.

 

Outros estudos sobre a coleção: 
FIGUEIREDO, Á. (2005). The Lisbon Mummy project: The employment of non-destrutive methods in mummy studies;
The Lisbon Mummy Project. reportagem SIC;
Múmias à alfacinha. revista "Super Interessante".





Tesouros da Arqueologia Portuguesa

Data de abertura ao público: 28 de novembro de 1980. 

Reabertura após reformulação: 21 de julho de 2018

Local no MNA: Sala do Tesouro

Comissariado científico: Rui Parreira e Clara Vaz Pinto

Organização institucional: Museu Nacional de Arqueologia

O Museu Nacional de Arqueologia possui nas suas colecções um número notável de objetos de joalharia antiga, provenientes de escavações ou, mais frequentemente comprados a ourives ou aos próprios achadores, que pela sua representatividade, permite uma visão de conjunto sobre a evolução desta arte no atual território português, desde os primórdios da metalurgia até à Alta Idade Média. Esses objetos foram reunidos ao longo de várias décadas e as circunstâncias particulares da sua aquisição explicam a frequente ausência de informação sobre as condições de achado e contextos arqueológicos que permita, quer determinar a posição cronológica ou a localização geográfica dos achados, quer extrair conclusões que vão para além da simples análise material dos objetos, limitada a aspetos formais, estilísticos ou técnicos. De facto, os materiais arqueológicos não são em si mesmos documentos acabados e para que possam ser historicamente valorizados é necessário conhecer-se o contexto exato em que foram encontrados, em que possuíam uma função.

Desde a remota antiguidade a Península Ibérica foi conhecida pela riqueza das suas jazidas metalíferas, onde abundavam o cobre, o estanho, o ouro e a prata. Compreende-se, com efeito, com base nos atuais conhecimentos decorrentes da investigação arqueológica, que à pobreza relativa das comunidades de pastores e agricultores do Neolítico peninsular suceda, com a adoção da metalurgia, um notável desenvolvimento económico e cultural. O primitivo comércio marítimo do Mediterrâneo e do Atlântico contribuiu para que, desde cedo, se cruzassem na Península influências de origem distinta que iriam moldar o carácter da produção artística, em particular das obras de joalharia.

Os primórdios da metalurgia do ouro: Calcolítico e Idade do Bronze

Os primeiros objetos em ouro, na Europa, datam do Vº milénio a.C. e foram produzidos na região balcânica.

O Sul e o Ocidente da Península Ibérica constituem um segundo importante centro produtor da ourivesaria europeia, embora mais tardio.

Aqui, o ouro começou a ser trabalhado durante o IIIº milénio a.C., praticamente em simultâneo com a metalurgia do cobre, ou seja, com o desenvolvimento do Calcolítico, ou Idade do Cobre.  Nesta época, os processos de fabrico limitavam-se ao esmagamento das pepitas, através de operações sucessivas de martelagem a frio e recozimento até serem obtidas espirais de fios, ou arames, e lâminas de espessura variável, a partir das quais se modelavam os objetos, por estampagem ou repuxado.

Produziam-se então formas muito singelas: delgadas lâminas de ouro, recortadas em tiras e perfuradas, diademas, pendentes, contas tubulares e espirais.

Os motivos decorativos eram raros e exclusivamente geométricos. Na maior parte dos casos, limitavam-se a orlas de pontilhados feitas por repuxado, ou bandas decoradas feitas por incisão.

A Idade do Bronze traz uma importante inovação tecnológica: a moldagem. Generalizam-se os adornos fundidos em moldes, entre os quais avultam os braceletes maciços de secção circular ou ovalada. A decoração geométrica, ganha expressão, tornando-se cada vez mais rica e exuberante: losangos, triângulos e ziguezagues, organizam-se em composições de grande beleza e complexidade, sobre peças cada vez mais pesadas, numa clara exibição de ostentação simbólica do Poder.

Apogeu e revolução na ourivesaria europeia: Idade do Bronze Final

Durante o final da Idade do Bronze, a fachada atlântica europeia, desde Portugal até à Irlanda, encontrava-se ligada por uma complexa rede de trocas.

O metal que, então, circula como matéria-prima ou como produto acabado é o protagonista deste comércio a longa distância. E para garantir o sucesso destes empreendimentos, assim como o precioso controlo e acesso às jazidas de minerais, trocam-se presentes entre chefes, cuja influência e poder são medidos pelo tamanho, número e peso das joias e armas que ostentam.

Ao domínio e aperfeiçoamento dos procedimentos tecnológicos já anteriormente conhecidos, juntam-se agora inovações de grande importância, como a técnica da cera perdida e a soldadura, permitindo a obtenção de novas formas, cada vez mais pesadas e sobretudo cada vez mais elaboradas.

A ourivesaria deste período tem em Portugal algumas das suas mais brilhantes expressões, verdadeiras obras-primas da arte e do saber dos antigos ourives: o colar da Herdade do Álamo, os braceletes da Cantonha ou a xorca de Sintra.

Podem individualizar-se, neste período, três grandes “famílias” de joias: anéis e braceletes, obtidos pela técnica da cera perdida (tipo Estremoz-Vilhena); torques e braceletes maciços, onde está presente a técnica da soldadura e uma típica decoração geométrica; e colares com complicados sistemas de fechos amovíveis, que chegam a pesar mais de 2Kg.

A ourivesaria orientalizante: rutura com o passado: Primeira Idade do Ferro

Os contactos entre a Península Ibérica e o Mundo Mediterrânico, por certo muito antigos, ganham uma extraordinária importância a partir do século VIII a.C., com o estabelecimento de um comércio regular, protagonizado pelos Fenícios. Sob a área de influência de Tartessos, desenvolve-se no Sul da Península uma brilhante civilização que incorpora nas suas tradições os hábitos, gostos e maneiras de viver novos, característicos do Mediterrâneo Oriental.

A ourivesaria é talvez a área que mais acusa estas profundas alterações: à pesada e maciça ourivesaria que caracteriza a Idade do Bronze, sucede-se uma produção que privilegia a leveza, os contrastes cromáticos e as descontinuidades, revelando-se, sobretudo, pela exuberância de uma nova linguagem decorativa. São abandonados os estreitos limites geométricos existentes anteriormente. Privilegiam-se agora os temas vegetalistas, antropomórficos e zoomórficos, de claro significado ideológico e simbólico.

A ourivesaria orientalizante define-se assim, por uma acentuada perda de peso, por uma alteração intencional da qualidade do ouro, através do uso de ligas com diferentes percentagens de outros metais e pela introdução de duas novas técnicas - a filigrana e o granulado. Alarga-se também o repertório das formas, predominantemente ocas e compósitas: diademas e placas articuladas, colares de contas diversificados, amuletos, anéis e sobretudo as arrecadas, que em Portugal, encontraram um sucesso e adesão tais, que são, ainda hoje, verdadeiros ex-libris da joalharia portuguesa.

A ourivesaria castreja: Idade do Ferro no norte de Portugal

No Norte de Portugal, desde os finais da Idade do Bronze e até à conquista de Roma, sedimenta-se uma realidade cultural muito própria, a que é costume chamar “Cultura Castreja”, por um dos seus traços mais emblemáticos ser, justamente, um povoamento organizado em povoados fortificados de dimensão variável, por vezes com as funções próprias de lugares centrais - os “Castros” e as “Citânias”.

Característica desta cultura, na sua fase final, pré-romana e romana, é uma escultura monumental em granito, com representações de príncipes ou heróis - os célebres guerreiros calaicos - e representações de javalis - os berrões - com provável significado tutelar.

Integrando influências claramente centro-europeias, mas também mediterrânicas, a ourivesaria castreja acentua a especificidade e originalidade desta região, através de dois tipos de adornos paradigmáticos: o torques, símbolo de prestígio e poder do chefe guerreiro e a arrecada, a joia feminina por excelência.

O anel e a moeda: época Romana

Apesar do afluxo contínuo de ouro a Roma, proveniente, quer da exploração das jazidas auríferas, iniciada sob Augusto (cuja produção anual atingiu 7,800 Kg, havendo dias em que se extraiam 4,300 Kg), quer dos saques dos exércitos romanos, que, só entre 209 e 169 a.C., se traduziram em cerca de 4 toneladas de ouro e 800 toneladas de prata, os romanos não trouxeram inovações significativas à ourivesaria peninsular.

Duas categorias de objetos merecem, no entanto, particular destaque: a moeda, maioritariamente em ligas de cobre, mas também em metais nobres (prata ou ouro) e os anéis. Os Romanos parecem ter sido os primeiros povos a utilizarem anéis de noivado e casamento, o “anulus pronubis”, normalmente usado no terceiro dedo da mão esquerda, onde corria a “vena amoris” e são certamente os responsáveis pela vulgarização deste tipo de joia e pela sua utilização em múltiplas funções: indicadores sociais de prestígio, garantia de representação diplomática, simples adorno, ou com funções mágicas e curativas.

Rui Parreira e Clara Vaz Pinto, comissários da exposição, novembro de 1980.

 


 

Reestruturação da exposição, novembro de 2017

“A tanta riqueza como tem esta região, junta-se a abundância de minerais.
Tudo isto constitui um motivo de admiração, pois a terra dos Iberos é riquíssima de todos estes bens (...) sendo invulgar que se encontrem conjuntamente (...) e não há palavras para elogiar mais justamente esta qualidade.
Até agora, nem o ouro, nem a prata, nem o cobre, nem o ferro nativos, foram encontrados em nenhuma parte da terra tão abundantes e excelentes”.
“Ainda que os gauleses creiam que têm as melhores minas de ouro (...), são melhores as da Hispânia.
Dizem que se encontram, nos rios, às vezes, pepitas com uma libra (...), que se purificam com pouco trabalho.”

Estrabão (69 a:C.-17 d.C.)

Os primeiros objetos de ouro do território datam do Calcolítico e são sobretudo pequenos objetos de adorno, que poderiam ser produzidos por martelagem a frio de uma única pepita de ouro.
O gosto pelo adorno brilhante, usado nos dedos, talvez no cabelo e no vestuário também, constitui-se em elemento de afirmação pessoal e social, e a competição que isso acarreta faz evoluir a técnica no sentido de uma maior dimensão e peso das peças, que passam a requerer a obtenção de maiores quantidades de metal, através da fusão de várias pepitas ou outras peças.
Também com a técnica da moldagem (por ciclos de martelagem alternados com aquecimento), produzem-se peças de grande aparato: diademas, gargantilhas e brincos, entre outros tipos.
A acumulação do metal na posse das elites, testemunhada pelas cadeias de espirais, produz o o principal objeto da joalharia pré-histórica: o bracelete maciço, simultaneamente peça de aparato e forma prática de entesourar significativas quantidades de metal.
A intensificação da vida económica, que é geral ao longo da Idade do Bronze, e a contínua acumulação de metal, leva ao aparecimento e desenvolvimento de técnicas e tradições diferenciadas de produção de joias com expansões geográficas diferenciadas, apesar de contactos e intercâmbios que são facilmente identificáveis.
Estas tradições são, no território português, principalmente três:

- os pesados colares maciços, decorados por séries de triângulos incisos ou lisos, e os braceletes similares.

- os braceletes trabalhados primeiro em cera usando um torno e depois fundidos pelo método da cera perdida.

- os conjuntos de braceletes de corpo ligeiro, por vezes usados em conjuntos múltiplos.

A viragem do II para o I Milénio AC, a transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro, assiste a grandes modificações nas produções da ourivesaria arcaica.
Em primeiro lugar, as técnicas típicas das várias regiões entram em contacto e mesclam-se: partes de joias são utilizadas para compor outras; objetos são produzidos utilizando, em partes distintas, técnicas diferentes.
Depois surgem as primeiras importações de joias do Mediterrâneo Oriental, logo seguidas pelos mais comuns produtos do comércio fenício. Joias mais leves, de grande complexidade técnica (os relevos obtidos por repuxado, o granulado), e a vulgarização das joias claramente destinadas a um público feminino.
Deste panorama complexo, surgem verdadeiras inovações, técnicas e estéticas como os colares complexos ou os conjuntos de aplicações para vestuário que, por simplicidade, se designam botões. 
O desenvolvimento da Idade do Ferro, a continuação dos contactos com culturas peninsulares, como a Ibérica, ou mais longínquas, como a Cartaginesa, produz a cristalização de tradições artesanais muito diferenciadas. 
No Sul de Portugal desenvolve-se, até aos inícios do séc. I AC, uma tradição muito focada na produção de brincos de três ou quatro tipos muito específicos, joias leves mas de grande mestria técnica.
Típico da Cultura Castreja do Noroeste Peninsular é outro tipo de arrecadas, mais pesadas.
O seu centro de produção parece estar junto da costa do Entre-Douro-e-Minho. 
À mesma cultura pertencem os torques, porventura a mais típica joia da ourivesaria arcaica do território português, mas que parecem ter sido produzidos mais para o interior.
Estes torques são, mais que adorno, símbolo de estatuto do guerreiro que os usa, e que com eles se fez por vezes representar, afirmações perenes das sociedades indígenas peninsulares.

Os romanos não trouxeram inovações significativas à ourivesaria peninsular. Pelo contrário o afluxo de ouro a Roma foi contínuo.

Da exploração das jazidas auríferas, iniciada sob Augusto, extraiam-se anualmente 7,800 Kg.

Os saques dos exércitos romanos, só entre 209 e 169 a.C., traduziram-se em cerca de 4 toneladas de ouro e 800 toneladas de prata.

Duas categorias de objetos merecem particular destaque: a moeda, maioritariamente em ligas de cobre, mas também em metais nobres - denários em prata e áureos - e os anéis. 
Os Romanos parecem ter sido os primeiros povos a utilizarem anéis de noivado e casamento, o anulus pronubis, normalmente usado no terceiro dedo da mão esquerda, onde corria a vena amoris. O anel era também vulgarmente um meio de autenticação de documentos, mediante a impressão em cera da sua gravação. 
Estes vários usos são certamente a causa pela vulgarização deste tipo de jóia e pela sua utilização em múltiplas funções: indicadores sociais de prestígio; garantia de representação diplomática; simples adorno ou com funções mágicas e curativas. 
A partir de 409 d.C. chegam á península Ibérica povos habitantes de zonas fora do Império que, do centro da Europa, trazem objetos de adorno e armas características, entre outros elementos, pelo uso de granadas incrustadas como decoração essencial das peças de ouro, de bronze dourado ou de outros metais, como o ferro das espadas.

Virgílio Correia, Museu Monográfico de Conimbriga, novembro de 2017.